Projeto visa melhoramento genético do tambaqui
Iniciativa é mais um passo rumo à certificação do produto que começa a ganhar mercado interno
Da Revista Sebrae Agronegócios
Fernando Bizerra Jr/BGpress
Brasília - Em Pimenta Bueno (RO), a 500 quilômetros de Porto Velho (RO), os pratos feitos com tambaqui são os mais pedidos na Pizzaria e Restaurante Toldu’s, localizada no centro da cidade. Os clientes que vão em busca da iguaria amazônica contam com um variado cardápio: tambaqui à moda; costelinha de tambaqui agridoce e até o tambaqui au limonade – com sotaque francês e tudo! Uma delícia. A boa nova é que a qualidade do alimento vai melhorar ainda mais.O peixe foi atração, em 2006, no festival gastronômico que mobiliza chefs da região
Um programa de melhoramento genético do tambaqui está dando os primeiros passos no Estado. Além do sabor, o tambaqui possui uma carne rica em ômega 3, gordura de baixa caloria que previne problemas cardiovasculares. Em 2006, o peixe foi atração no Cacoal Sabor, festival gastronômico que agita os chefs da região em busca das melhores receitas.
Mas, segundo o proprietário da Toldu’s, Delmar José Sepp, faz pouco tempo que o tambaqui “caiu” no gosto da clientela. Com 18 anos de experiência no ramo da alimentação, Sepp incluiu o tambaqui no cardápio do restaurante, mas sem muito sucesso. Ele conta que havia uma forte rejeição ao produto por parte dos clientes. “Antes, o peixe tinha gosto de terra, era um sabor forte e o pessoal reprovava”, lembra ele.
A mudança no paladar da carne do peixe está associada à criação do tambaqui em cativeiro, desenvolvida pelo projeto Piscicultura no Centro Sul de Rondônia, uma parceria do Sebrae, com o Banco da Amazônia, o Banco do Brasil, o governo do Estado, a Emater e quatro associações de piscicultores.
Um dos produtores rurais que aprenderam a arte de criar o tambaqui nos tanques e alimentá-los com rações especiais, livrando o peixe do sabor desagradável que afugentava os consumidores, foi o filho de imigrante japonês Megumi Yokoyama, conhecido como ‘seu’ Pedrinho. Ele é um dos beneficiados do projeto, que é desenvolvido em dez municípios de Rondônia, tais como Espigão do Oeste, Pimenta Bueno, Rolim de Moura, Nova Brasília e Alta Floresta D’Oeste.
A Piscigranja Boa Esperança, propriedade de ‘seu’ Pedrinho, é o maior produtor de peixes do município. Além de criar alevinos de boa matriz genética, beneficia milhares de quilos por semana de peixes engordados em outros criatórios da região. Cada etapa é cuidadosamente supervisionada pelo piscicultor. “O importante é ter sempre o produto a bom preço para manter o cliente”, costuma aconselhar.
Como tem pouco espaço em sua propriedade, ocupa-se principalmente da alevinagem para manter a qualidade genética. Assim, ele procurou criar uma rede de produtores que se estende até Ouro Preto do Oeste, a 200 quilômetros de Pimenta Bueno. Montar essas parcerias não foi fácil. “Custou muito para fazer os fazendeiros da região acreditarem que não é só gado que dá dinheiro”, conta ‘seu’ Pedrinho. Segundo ele, atualmente os fazendeiros são companheiros de trabalho. “Eu aprendo com os outros e eles, comigo”.
A experiência de criação em cativeiro de tambaqui e outros peixes regionais, apoiada pelo Sebrae, começou a ser implantada em 2003 com a participação de 102 produtores. Nesse ano, a produção do tambaqui em Rondônia cresceu 11%, o que equivale a cerca de 230 mil quilos de peixe a cada seis meses. Em um ano, foram criados cerca de 400 empregos diretos na cadeia produtiva da piscicultura.
O resultado animador fez com que o Sebrae encomendasse uma pesquisa para saber qual a aceitação da carne do tambaqui no mercado. Foram pesquisados consumidores em dez capitais e mais três cidades do interior de São Paulo. Para a alegria dos produtores, a conclusão foi a de que a procura pelo tambaqui é bem maior do que a oferta.
Rumo à certificação
Passada a primeira fase de implantação, o projeto caminha para uma nova vertente. Os técnicos do Sebrae, Emater e Secretaria Estadual de Agricultura, da Produção e do Desenvolvimento Econômico e Social (Seapes) querem agora estudar o tambaqui com o objetivo de realizar o melhoramento genético da espécie. A pesquisa será desenvolvida ao longo desses próximos dois anos e ajudará no processo de certificação do tambaqui produzido em Rondônia.
Na primeira etapa do programa está a avaliação populacional do tambaqui para identificar as famílias que compõem os estoques de reprodutores nos dois maiores criadores de alevinos que abastecem a região centro-sul do Estado: a Piscigranja Boa Esperança e a Piscicultura Vale Verde. “Nos últimos anos, os programas de aqüicultura passaram a dar importância às avaliações genéticas”, observa o pesquisador e oceanólogo Danilo Pedro Streit Júnior. “Estudos envolvendo marcadores moleculares vêm sendo utilizados com sucesso na avaliação da diversidade genética dos estoques naturais e cultivados de várias espécies de peixes”, complementa.
O projeto teve início em agosto de 2005, com um diagnóstico realizado pela Emater, constatando a baixa sobrevivência (média de 50%), crescimento desigual, falta de padronização no ganho de peso e matrizes e reprodutores com grande possibilidade de consangüinidade. Dando continuidade em novembro de 2006, com a coleta de dados para a avaliação dos reprodutores com aparelhos de alta freqüência que faz a identificação por meio de um radar. “O rastreamento do peixe é importante na hora de promover o acasalamento em cativeiro com vistas ao melhoramento genético”, explica o especialista. Em verdade, o que busca evitar é a consangüinidade, o que pode provocar deformações genéticas.
Outra vantagem do melhoramento genético é não utilizar antibióticos, dioxinas e outras substâncias proibidas e que podem ser detectadas em exames. De acordo com o pesquisador, essas medidas são fundamentais para que o produtor brasileiro tenha chance de garantir seu espaço no mercado nacional e internacional. “É preciso atender às expectativas do mercado”, ensina ele. Após a coleta de material genético – em geral, as partes da nadadeira caudal – e a marcação dos peixes, eles são liberados em um tanque e mantidos separados dos demais reprodutores.
O material colhido é encaminhado para o Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Estadual de Maringá (UEM/PR). Lá, o material é processado, quantificado e amplificado por meio da utilização da técnica de RAPD (Random Amplified Polymorphic DNA). A técnica identifica a variabilidade genética dos reprodutores.
De certo, os piscicultores de Rondônia já sabem: o melhoramento genético vai multiplicar os bons resultados obtidos até agora pela criação de peixes em cativeiro.
Serviço:
Agência Sebrae de Notícias
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